17 de janeiro de 2011

Enquanto a paz não vem

Assis é desses meninos
que olham deslumbrados
pelas janelas dos ônibus
e têm os passos guiados
pela esperança.

Os ônibus são cheios de destinos
que se cruzam e se separam
no próximo ponto.

Os sinais oscilam.
As placas de trânsito
indicam o caminho.

Fumaça, cheiro de gasolina.
E há o sol a esturricar a pele,
o medo e o cansaço na face dos outros.

As coisas todas fora do lugar,
Assis em todos os olhares,
 sua silhueta impossível,
órfão de pai,  mãe, e irmãos.

Os dias passam irrefutáveis,
tomados por um não saber atroz e incessante.
Não sei, não sabes, não sabe, não sabemos.

Verdade nua, crua e cruel.
E esse mundo dissimulado
que não se cansa de fingir
que está inteiro.

É tudo tão repetitivo.

Falta de sentido louca
e enlouquecedora,
te assalta no meio da tarde,
no caminho pro trabalho,
entre o segundo e o terceiro gole
de café quente e amargo.

Existir é como ter
um punhado de areia
jogado sobre seus olhos abertos
ou uma espinha de peixe
atravessada bem no meio
da sua garganta,

mas não há nada que faça se cumprir o desejo de desaparecer.

Seguimos mecanicamente,
cada vez mais anestesiados,
numa marcha quase fúnebre.

Assis em todos os olhares,
pontiagudo, todo fome e tropeço,
e nós, morte na vida,
irremediavelmente sozinhos.



16/11/2008

Texto antigo, originalmente escrito em prosa e publicado hoje com algumas supressões e outras alterações...

4 comentários:

  1. Muito bom! E adorei o fato de ter tido alterações no original. Causa-me ojeriza esse o papo-furado que "escreveu, tá escrito".

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  2. e há no poema ardor
    que permanecerá vivo
    sempre
    ...

    intenso poema
    ...

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  3. percepção aguda, intensidade, a vida mareja nos olhos


    abraço

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